A terapia hormonal (TH) da menopausa é um dos recursos mais eficazes para o controle dos sintomas climatéricos e para a preservação da saúde óssea. No entanto, sua segurança depende, fundamentalmente, da avaliação cardiovascular prévia da paciente. É por isso que a estratificação de risco cardiovascular pré-TH é uma etapa indispensável e não negociável antes da prescrição.
A questão central não é se a TH é segura ou perigosa de forma absoluta, mas sim para quem ela é segura, em que momento deve ser iniciada e quais pacientes precisam de investigação adicional antes de iniciar o tratamento.
Neste artigo, explico de forma detalhada como realizar a estratificação de risco cardiovascular antes de iniciar a terapia hormonal, quais fatores devem ser avaliados, quais exames são recomendados e quando a TH é segura, contraindicada ou exige cautela adicional.
Por que a avaliação cardiovascular é essencial antes da TH?
A terapia hormonal pode interferir em diferentes pontos do sistema cardiovascular: metabolismo lipídico, hemostasia e coagulação, função endotelial, pressão arterial e inflamação vascular.
Esses efeitos variam conforme: via de administração (oral vs transdérmica), tipo de progestagênio utilizado, dose de estrogênio, idade da paciente, tempo desde a menopausa e presença de comorbidades.
Por isso, a mesma TH que é segura para uma mulher jovem e saudável pode ser arriscada para uma paciente com fatores cardiovasculares acumulados.
O conceito de janela de oportunidade
Um dos princípios mais importantes da TH moderna é o conceito de janela de oportunidade (window of opportunity). Esse conceito estabelece que a TH iniciada em mulheres com menos de 60 anos ou dentro dos 10 anos da menopausa tende a ter mais benefícios do que riscos cardiovasculares. A TH iniciada tardiamente (mais de 10 anos após a menopausa ou após os 60 anos) pode ser associada a maior risco cardiovascular.
Etapas da estratificação de risco cardiovascular pré-TH
- Anamnese detalhada
A primeira etapa é a história clínica completa, com atenção especial para:
- História cardiovascular pessoal: doença arterial coronariana, AVC prévio, trombose venosa profunda ou embolia pulmonar, doença arterial periférica, hipertensão arterial, dislipidemia, diabetes mellitus, doença renal crônica.
- História cardiovascular familiar: infarto precoce na família (homens < 55 anos, mulheres < 65 anos), AVC precoce, tromboembolismo familiar, doenças trombofílicas hereditárias.
- Fatores de risco modificáveis: tabagismo, obesidade, sedentarismo, dieta inadequada, estresse.
- História ginecológica: idade da menopausa, tipo de menopausa (natural, cirúrgica, induzida), sintomas climatéricos, histórico de câncer hormônio-dependente.
- Exame físico
O exame físico deve incluir: aferição da pressão arterial, medidas antropométricas (IMC, circunferência abdominal), avaliação cardiovascular (ausculta, sinais de insuficiência cardíaca), avaliação de pulsos periféricos e exame ginecológico completo.
- Exames laboratoriais
A investigação laboratorial básica pré-TH deve incluir:
- Perfil lipídico: colesterol total, LDL-c, HDL-c, triglicerídeos.
- Glicemia e metabolismo: glicemia de jejum, HbA1c, insulina (em casos selecionados).
- Função hepática e renal: TGO, TGP, creatinina, TSH.
- Hemostasia (quando indicado): coagulograma, pesquisa de trombofilias (em casos selecionados).
- Avaliação complementar
Em pacientes com fatores de risco, pode ser necessário: ECG de repouso, ecocardiograma, teste ergométrico, Holter (em casos de arritmias), Doppler venoso (em casos de suspeita de TVP), calcium score coronariano, ultrassonografia carotídea (espessura íntimo-média).
Classificação de risco cardiovascular
Após a avaliação clínica e laboratorial, a paciente é estratificada em uma das três categorias operacionais:
Risco baixo
Sem fatores de risco cardiovasculares, sem doença cardiovascular estabelecida, IMC normal, pressão arterial normal, perfil lipídico normal, não tabagista.
Conduta: TH pode ser iniciada com segurança, preferindo via oral ou transdérmica conforme preferência e perfil da paciente.
Risco intermediário
Presença de 1 a 2 fatores de risco modificáveis, hipertensão controlada, dislipidemia, obesidade, história familiar positiva.
Conduta: TH pode ser considerada, mas com via transdérmica preferida e controle rigoroso dos fatores de risco. Investigação complementar pode ser necessária.
Risco alto
Doença cardiovascular estabelecida, AVC prévio, trombose venosa prévia, diabetes com lesão de órgão-alvo, doença arterial periférica, múltiplos fatores de risco não controlados.
Conduta: TH sistêmica geralmente contraindicada. Avaliar alternativas não hormonais para controle de sintomas.
Fatores que aumentam o risco cardiovascular na TH
- Via de administração: a via oral está associada a maior risco de eventos tromboembólicos venosos em comparação com a via transdérmica. A via transdérmica tem menor impacto sobre a hemostasia e o metabolismo hepático, sendo preferida em pacientes com risco intermediário.
- Tipo de progestagênio: progesterona micronizada (neutra ou benéfica), didrogesterona (perfil favorável), medroxiprogesterona (associada a maior risco cardiovascular em alguns estudos), derivados de 19-nortestosterona (efeitos menos favoráveis sobre lipídios).
- Idade e tempo desde a menopausa: a TH iniciada precocemente (janela de oportunidade) tem melhor perfil de segurança cardiovascular.
- Presença de enxaqueca com aura: a enxaqueca com aura é considerada um fator de risco para AVC. A TH combinada pode aumentar esse risco, especialmente pela via oral.
- Tabagismo: o tabagismo é um fator de risco independente para eventos cardiovasculares e tromboembólicos.
Quando a TH é contraindicada do ponto de vista cardiovascular?
A TH sistêmica é formalmente contraindicada na presença de: doença arterial coronariana estabelecida, AVC prévio, trombose venosa profunda ou embolia pulmonar (ativa ou prévia), trombofilias conhecidas de alto risco, doença hepática grave, hipertensão arterial não controlada, enxaqueca com aura (contraindicação relativa para via oral) e doença arterial periférica.
Como reduzir o risco cardiovascular na TH
- Escolha da via: preferir via transdérmica em pacientes com risco intermediário.
- Escolha do progestagênio: preferir progesterona micronizada ou didrogesterona.
- Dose mínima eficaz: usar a menor dose que controle satisfatoriamente os sintomas.
- Controle de fatores de risco: tratar hipertensão, dislipidemia, diabetes; incentivar cessação do tabagismo; promover atividade física regular; orientar dieta saudável; controle rígido de peso.
- Monitorização periódica: reavaliação clínica anual, pressão arterial em todas as consultas e perfil lipídico anual.
TH e trombose venosa: o que considerar?
O risco de trombose venosa profunda (TVP) e embolia pulmonar (EP) é maior com a via oral, aumenta com o avançar da idade, é mais pronunciado nos primeiros anos de uso e é amplificado por comorbidades como obesidade, imobilização prolongada, intervenções cirúrgicas e trombofilias.
Estratégias para reduzir o risco trombótico: preferir via transdérmica, avaliar rigorosamente o histórico pessoal e familiar de trombose, considerar pesquisa de trombofilias em casos selecionados e orientar profilaxia em situações de imobilização.
Papel do score de risco calculado
Ferramentas validadas como o ESC SCORE ou o Framingham Risk Score são fundamentais para quantificar o risco cardiovascular global da paciente. Esses escores integram parâmetros objetivos como idade, sexo, pressão arterial sistólica, níveis de colesterol e tabagismo, fornecendo uma estimativa precisa de risco cardiovascular em 10 anos.
Avaliação cardiovascular pré-TH em Santo André
Se você está em Santo André ou na região do Grande ABC e está considerando a terapia hormonal da menopausa, é fundamental buscar um ginecologista com experiência na avaliação cardiovascular pré-TH. A prescrição não deve ser feita de forma empírica. Ela exige avaliação clínica completa, exames laboratoriais direcionados, estratificação de risco individualizada, escolha criteriosa da via e dose, além de monitorização contínua da relação risco-benefício.
Dúvidas Frequentes
- A terapia hormonal faz mal ao coração?
A TH pode ser segura quando bem indicada, especialmente em mulheres dentro da janela de oportunidade (< 60 anos). O risco cardiovascular depende do perfil individual da paciente, da via de administração e da presença de comorbidades. - Quando a terapia hormonal é contraindicada?
A TH sistêmica é contraindicada em casos de doença cardiovascular estabelecida, AVC prévio, trombose venosa prévia, trombofilias de alto risco, hipertensão não controlada e doença hepática grave. - Via transdérmica é mais segura que via oral?
A via transdérmica tem menor impacto sobre a hemostasia e o metabolismo hepático, sendo preferida em pacientes com risco cardiovascular intermediário ou risco trombótico. - O que avaliar antes de iniciar a terapia hormonal?
Deve-se avaliar história clínica completa, pressão arterial, perfil lipídico, glicemia, função hepática e renal, história familiar cardiovascular e fatores de risco como tabagismo e obesidade. - TH aumenta o risco de trombose?
Sim, especialmente a via oral. O risco é maior nos primeiros anos de uso, em pacientes mais idosas, obesas ou com histórico de trombose. A via transdérmica reduz significativamente esse risco.
Conclusão
A estratificação de risco cardiovascular pré-TH é uma etapa essencial e inegociável antes de iniciar a terapia hormonal da menopausa. Os pontos principais são:
- A TH é segura para a maioria das mulheres na janela de oportunidade (< 60 anos ou < 10 anos de menopausa).
- A via transdérmica apresenta o melhor perfil de segurança em pacientes com risco intermediário ou sobrepeso.
- A progesterona micronizada é o progestagênio de primeira escolha do ponto de vista cardiovascular.
- A TH é contraindicada em doença cardiovascular estabelecida, trombose prévia e trombofilias de alto risco.
- O controle ativo dos fatores modificáveis é indispensável durante todo o tratamento.
- A monitorização periódica garante a segurança e eficácia contínuas da terapêutica.
Agendamento de Consulta com Dr José Roberto Lambert em Santo André
CRM-SP 58.278 | RQE 80.496
Mestrado em Ciências Médicas do Centro Universitário da FMABC
Especialista em Reprodução Assistida FEBRASGO-FMABC
Atua como ginecologista em Santo André.

